domingo, 13 de maio de 2012

O Vento


 Amarante e a customização

Não importo em ver a idade em mim. Tem vezes que os caminhos muitos insistem em nascer pra ver deitar o novo. Veja bem meu bem, arranjei alguém chamado saudade. Em meados de 2000, lá no mês das serpentinas e confetes, minha irmã e eu, com dez anos de caminho, magricelas, de pernas de saracura, pulamos um legítimo carnal de salão. Duas canções eram as mais aguardadas e festejadas pelos pés: Anna Júlia e Pierrot. Cinco anos después, num agosto de estética gelada, Los Hermanos pousava em terras caxienses para show de lançamento do 4. Se toda rosa é rosa assim ela é chamada, todo pai é pai com sua sagração de governante supremo. Tira esse azedume do meu peito e com respeito trate minha dor. Reza a lenda que todo carnaval tem seu fim e assim findou a banda. Um século, um mês, três vidas e mais. Sete anos foi o tempo de espera. Uma noche de 12 de maio de 2012, em Porto Alegre, com a companhia de amigas e amigos de caminhada. Noite para copilar na memória de um disco de vinil. Amarante, com seu terno brechó atalóide, seu sorriso bonito, sua barba, sua voz arrastada e bêbada. Duas canções marcaram uma voz rasgada e rouca, Conversa de Botas Batidas e o Vento. As duas canções de cabeceira, que se confundem quando converso sobre a minha estrada. Espera que eu não terminei. Nunca diga, da saudade banda Graforréia Xilarmônica, com seu brega iê iê iê, provocou suspiros da Paula. Marina e eu até ensaiamos passos 60’s enquanto cantarolávamos fui lhe mostrar uns discos que comprei de um cantor que eu sempre gostei . Mais do que canções de blocos do eu sozinho, canções dos Hermanos possuem em sua gênese seríssimas chances em se tornarem mantras. É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê; Diz, quem é maior que o amor, me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora e Sonho não se dá, é botão de flor o sabor de fel, é de cortar. A felicidade já consumia todo o corpo, quando – ao final do show – Marília jogou em direção ao palco uma camiseta customizada que havia feito para a Valda. Amarante ficou com ela. Se tem que durar, que vem renascido o amor.

Canções da memorável noite de 12 de maio
1. O vencedor
2. Retrato pra iaiá
3. Toda carnaval tem seu fim
4. Além do que se vê
5. O vento
6. Primeiro andar
7. Morena
8. Um par
9. Do sétimo andar
10. Azedume
11. Descoberta
12. Sentimental
13. A flor
14. Cara estranho
15. Condicional
16. Deixa o verão
17. A outra
18. Um milhão (canção nova)
19. Casa pré-fabricada
20. O velho e o moço
21. Conversa de botas batidas
22. Último romance

Bis
23. Nunca diga (Graforréia Xilarmônica)
24. Tenha dó
25. Anna Júlia
26. Quem sabe
27. Pierrot

Pâmela Cervelin Grassi

quinta-feira, 26 de abril de 2012

retratos


retratos em
retalhos
retumbantes de
retrospectos

retalhos
retratados em
retrospectos
retumbantes

retrospectos
retumbantes
retratados em
retalhos

pâmela cervelin grassi,

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Creme dental


Saturação, do verbo saturar, corresponde aos suspiros encontrados pelas ruas dos centros urbanos. São habituais, requintados e de sentimentos vazios. Às vitrines, oferecemos nossos receptáculos de plásticos para adquirir pacotes de felicidade. Aos fios e cabos de luz [que multiplicam nossos embaraços] ofertamos nossa sangue de gasolina. E ainda há a glória dos grande chefes de família em encaminhá-la de forma eterna, seja em bustos, monumentos ou altares. De liquidação, fiz um curso de boas maneiras. Paguei em crediário para andar comportado e alinhado.

Pâmela Cervelin Grassi,
inspiração esparramou do álbum Grande Liquidação, do querido Tom Zé

quarta-feira, 14 de março de 2012

Viva a Tropicália! Viva o Tom Zé! Viva a Antropofagia! Viva a Vida Re-inventada!

 Árbol de la Vida, Violeta Parra

- A raiz sustenta a árvore como a fé sustenta a nossa vida.

Escola Bíblica Litúrgica da Diocese de Caxias do Sul, 2005. Lema da Região Pastoral Oeste. Neste início de 2012, com a revisão do Projeto de Vida [tempo-espaço de (re)colhimento, silên-cio e (re)significações], a frase retorna de modo singular, pedindo passagem para reflexões sobre a caminhada.  Perguntas a partir da parte mais intrínseca de uma árvore degustam nossos corpos em movimentos antropofágicos: beberico [com vinho vintage] possibilidades de loucuras e mastigo pacientemente e com cuidado estas perguntas, permitindo que elas deslizem sobre o corpo-alma-corpo, tornando-me a própria pergunta do meu Projeto de Vida. E assim como as palavras carregam seus interstícios, a caminhada destas perguntas em metodologias antropofágicas também faz e re-faz intervalos. Quando despertados por meio de um olhar cotidiano-poético, os nós vinculados de uma extremidade a outra, re-compõem uma enredada costura. Um dos interstícios desta costura é um verso da poetisa Cecília Meireles. Carrego-o dentro da minha mochila desde que o encontrei numa rua de ventos [Mário Quintana também atravancava por lá].

- Porque a vida, a vida? Ah, a vida! A vida só é possível reinventada!

Outro interstício é a Conversa de Botas Batidas, dos Hermanos. A letra é de abrir qualquer janela-manhã de sol.  Gosto destes versos:

- Esse é só o começo do fim da nossa vida, deixa chegar o sonho, prepara uma avenida que a gente vai passar!

Dois intervalos de caminhada que já se manifestaram em diferentes momentos. O singular destas manifestações mora no detalhe de que nunca foram de modo igual. Prepararam a avenida de modo imprevisível e (re)inventaram-se com o enredo que acolheram. Desde então, as perguntas que mastigo perguntam-me se o processo de vida re-inventada constituiu-me como as raízes da minha árvore.  Se for isto mesmo, a fé [que lateja dentro do meu corpo-alma-corpo e escorre para fora por meio da práxis] insiste pelo gostoso gosto de viver de modo re-criado. Re-criar supõem colocar-se no mundo poeticamente: desconfiar do que é apresentado aos nossos olhos, indagar-se e re-contruir a partir das possibilidades das cores, dos cheiros e dos ventos.  Permitindo um olhar de espanto, o cuidado com as relações humanas [em especial] re-inventa os jeitos de ouvirmos, tocarmos, cheirarmos, abraçarmos e sentirmos [e outros versos da leitura do bemquerer].  Tem outro verso da Cecília que não é interstício, porém é provocação quando proseamos a respeito do cotidiano poético.

- E comecei a cantar-te. Amor é arte. Mas a vida é tão pequena, bela sobre toda a flor – tão pequena para amar-te! E em toda parte causa espanto o meu amor.

A nossa caminhada orgânica na Terra é tão pequena e única que arriscar o espanto e a poesia em nossas vidas é torná-la uma arte de muitos retalhos úmidos e vivenciados.  Assim, inauguro os versos do estandarte do meu projetodevidavenida [após oito anos]:

- A raiz sustenta a árvore como a fé sustenta a nossa vida, assim como o re-inventar sustenta o nosso bemquerer.


 Pâmela Cervelin Grassi
[Cabe um detalhe provocador: a Pastoral da Juventude, com um Processo de educação na fé permeado pela Formação Integral preparou esta Avenida de Poesia],

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

floriô


neste cul[ca]tivar
floriô jabuticabeira
e agora, meu pé?

pâmela cervelin grassi

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Não se nasce mulher, torna-se mulher I


A palavra cantada, de rima lavrada, abre passagem para uma prosa sobre histórias da caminhada. Na procura de indícios, o possessivo inerente aos escritos sobre histórias de vida não implica somente em uma, pelo contrário, chama para a sua prosa várias histórias, algumas conjugadas, outras desencontradas e todas à mercê de loucuras possíveis, abertas ao ato de perceberem os fios condutores das suas construções com os discursos sociais e culturais, arquitetados, requintados e (de)organizados historicamente. Devorei as palavras de Michelle Perrot e a antropofagia, enquanto processo cultural que me pauta, fez-me deglutição de letras. Comê-las, assimilando a essência e devolvê-las transformadas e transgredidas com os fragmentos do meu corpo. O ato de escrever e arremessar palavras escritas ao público é um fio de algodão que pede licença ao seu silêncio [este ainda destinado às mulheres]. É no silêncio que as palavras germinam. E são nos questionamentos e na subversão deste silêncio que emergimos oralidade e atravessamos as ondas. Ao transcrever vestígios do meu corpo como uma construção política e cultural, integro-o com as marcas da educação destinada às mulheres. Ainda hoje há silêncios, que mesmo silêncios, estão sujeitos à vigilância [tem muita vigilância vestida de certezas, privilégios e autoridade].  

Diários/correspondências: Quando criança e adolescente, a escrita privada e íntima praticada à noite, no silêncio do quarto (p.28) constituiu-se como um dos atos cotidianos. Na pauta, amores, novelas mexicanas, amigas, Chiquititas, novelas mexicanas, primas chatas, amigas, histórias de eu e os meus gatos bichanos, novelas mexicanas, episódios da escola e Harry Potter.  Perrot conta que o diário íntimo era um exercício autorizado para o controle pessoal das mulheres, já que tal prática exercia uma excessiva introspecção.  As cartinhas para o círculo de amigas na escola e na catequese era outra prática rotineira, me perguntando se a sociabilidade das palavras meigas e com canetinhas coloridas constituem-se como a expressão feminina recomendada pela sociedade.  

Educação: O processo de sexuação, com a educação destinada às gurias e a instrução dedicada aos guris, persiste ainda? Mesmo requisitadas para todo o tipo de tarefas domésticas, a menina é mais educada do que instruída, mais vigiada, mais cuidada, afinal sentar de pernas abertas é uma afronta!  Na construção das identidades, a glória é masculina e a felicidade, feminina (p.99). Assim, desde pequena, como uma aprendiza de dona-de-casa, fui marcada pelos líquidos simbólicos desta estrutura de identidade feminina que nos é imposta: a água e o leite. Estes líquidos encaixam-se no ciclo mecanizado da vassoura, do pano, da colher e da panela [podemos ainda citar o tanque, o detergente, o rodo, a esponja].  Quando entram em ação, após a prévia das propagandas televisivas dos alvejantes e amaciantes floridos e rosados e das dicas de cozinha dos programas da manhã, protagonizam juntos o varrer, o lavar, o cozinhar, o arrumar, o limpar, o encher-a-pança do marido, dos filhos, dos irmãos, do pai. Lavar a louça é uma terapia e cozinhar uma dádiva cotidiana irresistível, afinal a sedução pela comida é ainda requisitada para o funcionamento da família.  

Menstruação: Além da água, do leite, há um terceiro líquido simbólico: o sangue. A menstruação é tida como um incômodo, logo o sangue tem como destino o lixo do banheiro.  E, se a histeria era considerada doença de mulher nervosa pela sua própria natureza, hoje a TPM é a linha contínua e requintada do controle que a medicina masculinizada e o mundo exercem sobre o nosso corpo.  Mas geralmente o que se vê é o silêncio do pudor, ou mesmo da vergonha, ligado a sangue das mulheres: sangue impuro, sangue que ao escorrer involuntariamente é tido como “perda” e sinal de morte. O sangue macho dos guerreiros “irriga os sulcos da terra” de glória. O esperma é sementeira fecunda (p.44). Pois é, cresci em instituições que o sangue da mulher é impuro, sujo, com odor ruim e colocado no esquecimento do absorvente plástico. 

Como extrapolar as escritas noturnas, a água, o leite e o sangue e re-significá-las num movimento de construção de autonomia dos nossos corpos? Parto para o percorrer páginas úmidas, teo-poiéticas e eco-feministas da Maria Soave. 

Pâmela Cervelin Grassi
* O título da prosa é memória-palavra da Simone de Beauvoir. A prosa multiplicou-se a partir do livro Minha História das Mulheres, escrita por outra francesa, Michelle Perrot.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

sem a letra a

 
esse retalho
entrou assim,
fez-me bagunça de novelos

o gosto de costurá-lo
é o regresso de desfazer-se em fios

pâmela cervelin grassi,